sexta-feira, 11 de março de 2011

Perspectivas

A perspectiva do mundo depende do sítio de onde o observas, deveríamos portanto procurar a inocência de cada local explorando a ambição daquele estado puro ao máximo, porém continuamos agarrados a uma monotonia resignada.

Encontro-me aqui no deleite do teu regaço, onde te fazes sentir de uma forma indefinida. Aqui sentado na minha prancha só dou conta desta realidade pelo som do chapinhar das ondas que transformam esta imensidão num tónico indispensável. És uma analogia perfeita da Vida. Tantas vezes me puxas para trás, tantas vezes me fazes cair, tantas vezes me fazes andar às voltas sem ter um destino certo e mesmo assim, sempre que me levanto fazes-me sorrir, sempre que deixas sentir a tua serenidade fazes-me acreditar, sempre que a rebentação dá origem a um arco-íris mostras-me a beleza, sempre que sacrificas o teu sal na minha pele bronzeada mostras-me o significado da partilha. Sem regras que me dêem certezas, sigo apenas os teus sinais.

Não tenho vergonha de começar, não tenho receio da aventura nem da languidez da saudade, é por isso…que não faço planos para o próximo adeus.

Filipe Almeida

Foto: Internet

The Smashing Pumpkins - Disarm

Artista da Semana: The Smashing Pumpkins

Álbum: Siamese Dream (1993)

Música: Disarm

Recomendação: 5/5

"I used to be a little boy
so old in my shoes
and what i choose is my choice
what's a boy supposed to do?
the killer in me is the killer in you
my love
I send this smile over to you"


Infidelidades - Parte 5/5


Continuação da parte 4

“(…) Há três anos, logo a seguir ao meu aborto, anunciei que tinha uma coisa importante para te dizer. Lembras-te? Talvez devesse ter sido mais sincera contigo. Se o tivesse feito, quem sabe se tudo isto nunca tivesse acontecido, mas o certo é que nem agora, na situação em que me encontro, tenho forças para o tal. Isto porque tenho a impressão de que, uma vez pronunciadas certas palavras, as coisas entre nós ficarão irremediavelmente estragadas, sem conserto possível. Por isso, tomei a decisão de guardar tudo para mim e desaparecer do mapa.

Custa-me muito dizer isto, mas contigo nunca soube o que era o verdadeiro prazer sexual, nem antes nem depois do casamento. Fazer amor contigo era maravilhoso, mas tudo o que sentia, naqueles momentos, eram sensações vagas, tão vagas que dir-se-iam pertencer a outra pessoa. A responsabilidade de não ser capaz de sentir nada era cem por cento minha. Dentro de mim havia como que uma espécie de obstáculo que me impedia de aceder ao prazer sexual. Quando, por razões que não sou capaz de explicar, fui para a cama com aquele homem, o bloqueio desapareceu de repente, deixando-me completamente desatinada.

Entre nós os dois houve sempre, desde o princípio, algo de muito íntimo e delicado. Agora, porém, também essa alquimia se desvaneceu. Aquele mecanismo perfeito, quase mítico, ficou destruído. E quem o destruiu fui eu. Falando mais precisamente, houve algo que me fez destruí-lo. Que isso tenha acontecido, ninguém lamenta mais do que eu. Nem toda a gente tem a sorte de dispor de uma oportunidade como a que eu tive contigo. Odeio com todas as minhas forças a existência dessa coisa que me provocou tudo isto. Nem fazes ideia o ódio que lhe tenho. Quero saber ao certo do que se trata. Tenho de saber concretamente o que é. Devo encontrar as suas raízes, erradicá-la, julgá-la, castigá-la. Terei forças para o fazer? Não estou bem certa disso. De qualquer modo, é uma coisa que só a mim diz respeito, nada tem a ver contigo.

Só te peço que daqui em diante não te preocupes mais comigo. Esquece-me e procura refazer a tua vida. Quanto à minha família, vou escrever-lhes a dizer que a culpa do que aconteceu foi minha, e só minha, e que tu não és tido nem achado no que diz respeito a esta questão. Não creio que te venham causar problemas. Penso que devemos dar de imediato início aos trâmites do divórcio. Creio que será a melhor solução para os dois. Peço-te por tudo que não te oponhas e dês o teu consentimento. No que toca à minha roupa e ao resto das minhas coisas, deita tudo para fora, dá a quem precisa ou faz o que achares melhor. Fazem parte do passado. Perdi direito a todas as coisas que usei durante a nossa vida em comum, sinto isso.

Adeus.”

Haruki Murakami, “Crónica do Pássaro de Corda”

Foto: Isabel Madureira

Curtas XIV - Competição


E quando há mais que uma pessoa a amar outra...


"O amor é como uma competição, no final há sempre alguém que perde e outro que ganha."


quarta-feira, 2 de março de 2011

Pete Murray - See the sun

Artista da Semana: Pete Murray

Álbum: See the sun (2005)

Música: See the sun

Recomendação: 5/5

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Infidelidades - Parte 4/5

Continuação da parte 3.

“(…) Chegou um dia e ele pediu-me que te deixasse e que fosse viver com ele. Dizia que nós tínhamos sido feitos um para o outro, que não havia razão para não estarmos juntos. Que também ele abandonaria a sua família. Pedi-lhe que desse um tempo para pensar. Depois de nos despedirmos, no comboio, no regresso a casa, de repente percebi que já não sentia nada por ele. Não sei explicar por que razão, mas no instante em que surgiu a ideia de vivermos juntos, aquela atracção misteriosa alojada dentro de mim desapareceu, como que varrida por um violento tornado. Não sentia por ele o mínimo desejo.

Foi a partir daí que comecei a sentir-me culpada. Tal como te disse antes, enquanto senti por ele um intenso desejo sexual nunca conheci o mínimo sentimento de culpabilidade. Só estava interessada em certificar-me de que não desses conta de nada. Pensava eu que podia fazer o que me desse na gana, na condição de que tu não te apercebesses disso. A minha relação com ele e a minha relação contigo pertenciam a dois mundos diferentes. Quando o meu desejo por ele se desvaneceu, senti-me completamente perdida.

Sempre me tivera na conta de uma pessoa honesta. Escusado será dizer que tenho muitos defeitos, mas, no que toca às questões importantes, nunca tinha mentido a ninguém nem me enganara a mim própria. Nunca te tinha escondido nada, e isso representava aos meus olhos um motivo de orgulho. E, no entanto, durante meses a fio andei a mentir-te descaradamente sem sentir uma ponta de remorso.

A bem dizer, foi essa a verdade que começou a atormentar-me. Comecei a sentir-me uma pessoa vazia, sem valores nem interesse. Vendo bem, se calhar é isso mesmo que sou. Além disso, há outra coisa que me preocupa, e muito: por que senti de repente um desejo anormal e irreprimível por um homem que não amava? Não consigo compreender porquê. Se não fosse aquele desejo, hoje ainda estaria a teu lado, a viver feliz e contente. E aquele homem não passaria de um amigo com quem poderia trocar dois dedos de conversa, de vez em quando. A verdade, porém, é que aquele desejo louco, deitou tudo por terra e reduziu a nada tudo o que nós tínhamos construído juntos, pouco a pouco, durante anos. E deixou-me ficar sem nada: levou-te a ti, ao lar que tinha constituído contigo, ao meu trabalho. Por que carga de água é que me foi acontecer uma coisa assim?(…)”

Haruki Murakami, “Crónica do Pássaro de Corda”

Curtas XIII - O triunfo



"A vida nunca é fácil para aqueles que sonham."


Robert James Waller
Foto: José António

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Fusão de Sentidos


Ninguém acredita! Tentamos marcar a diferença, movidos por valores quase extintos devido à imprudência de falsos crentes, que reduziram o possível num tesouro difícil de alcançar.

A possibilidade foge a cada dia que passa, como se tivessem a dar-nos a mão e por meros milímetros não as conseguimos alcançar. Estivemos tão perto, como o limite do solo com o abismo. E com o tempo perdemos a fé. Não aquela fé religiosa, mas a fé pessoal, onde criamos todos destinos, onde se cria todas as ilusões, nas quais a credibilidade assume a diferença entre o essencial e o indispensável.

Quantas vezes somos capazes de desistir de alguém que amamos? E o amor próprio? Será essa a condição de tanta persistência?

Neste mundo criado a preceito, ouvem-se as sirenes sempre que o momento se reduz num enigma e a invisibilidade se torna tangível a uma vulgar troca de sentidos. Chama-se a fusão de sentidos.

(Olfacto+Tacto+ visão+ Audição+ Paladar) / (Frente+Trás+ Direita+ Esquerda+ Cima+Baixo) = Sentimento <=> (Olfacto+Tacto+ visão+ Audição+ Paladar)/Sentimento = Várias direcções <=> Amor ≈ Sem Sentido

Talvez a persistência no amor não tenha sentido. Sempre que tenhas dúvidas que ele seja possível, desisti, porque não haverá solução.

Filipe Almeida

Foto: Internet

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Foals - What Remains

Artista da Semana: Foals

Álbum: Total Life Forever (2010)

Música: What Remains

Recomendação: 5/5

Dia 9 de Julho no Optimus ALIVE 2011, lá estarei :)

Ana Garcia Martins - Só sei que muito sei

"Tenho 30 anos e não sei nada sobre o amor. Gostava de poder dizer “quem me dera ter 20 anos e saber o que sei hoje”, mas seria pretensão. Porque não sei nada. Durante muito tempo achei que amor era viver com o coração nas mãos, no pescoço, no estômago, pronto a explodir e a projectar-se em mil pedaços. Gostar, gostar a sério, aquele gostar de paixão, só podia ser isso. Viver em ânsia o tempo todo, correr atrás, pedir, implorar, pedir de novo, pôr-me em bicos de pés e anunciar a minha presença. Fazer uma gestão de danos a todo o momento, tentar não incomodar, não estar a mais, dar, dar, dar e receber quase nada em troca. Achar que esse pouco era mais do que suficiente, que mais vale pouco do que nada. E foi isso. Achei sempre que pouco era melhor do que nada. A triste realidade é essa. Já não me lembro de quantas vezes me senti remediada, assim-assim, vai-se andando. De quantas vezes parti a alma e de quantas a voltei a colar. De quantas vezes me apaixonei e de quantas jurei para nunca mais. Que as coisas do amor não eram para mim e mais valia estar quieta. Uma treta. Nunca conseguir estar quieta. E via os acidentes emocionais a darem-se e não podia fazer nada para os evitar. Nem sequer fechava os olhos para não ver. Meti-me em muitas relações sem cinto de segurança, e depois achava estranho fazer mais uma fractura no espírito. As cicatrizes que para aqui vão. A verdade é que sempre fui uma crente, uma utópica, uma arrebatada. Uma totó, a palavra não é outra. Se calhar ainda sou, mas de aliança no anelar esquerdo. Afinal, amor podia ser outra coisa que não uma sofreguidão desatada, uma correria sem meta à vista. Afinal, comecei a perceber, amor era 50/50. E dias mais calmos. E tardes no sofá. E filmes, e séries, e amigos à mesa. E conversas, e planos, e os nomes dos filhos que se quer ter. E uma conta corrente, este mês pago eu a empregada e tu a conta da luz. E dizer que um cão num apartamento nem pensar. E voltar atrás e dizer que sim, haja espaço e boa vontade. E pegar num mapa e ver quanto mundo nos falta ver. E decidir quem desce a pé os três andares para deixar o lixo, quem se arrasta para tratar da louça, quem encaminha a roupa para os armários, quem atira com a carne para o forno (ontem fui eu, hoje és tu). Gosto deste amor. Gosto muito deste amor que me dá beijos quando chego a casa, que não vive imerso em dúvidas existenciais e pós-modernas, que há já algum tempo que sabe o que quer. E que me quer a mim. Disse-o no altar, à frente de todos. Estava lá e ouvi. Retiro o que disse. Tenho 30 anos e sei quanto baste sobre o amor. Quem me dera ter 20 e saber o que sei hoje"

Ana Garcia Martins, Jornal Metro


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Infidelidades - Parte 3/5


Continuação da parte 1 e parte 2.

“(…) Porque que é que aquele desejo tinha surgido em mim, assim tão de repente? E porquê com alguém que não eras tu? Não sei o que dizer. O que sei é que, naquele momento, não consegui controlar-me. Nem sequer fiz por isso. Por favor, procura entender: nunca me passou pela cabeça que te pudesse estar a enganar. Na cama daquele hotel, fiz amor com aquele homem como uma possessa. Para ser sincera, nunca na minha vida me tinha sentido tão bem. Minto, não foi assim tão simples: «tão bem» é dizer pouco. Tinha a sensação de estar a rebolar em lama quente. A minha mente absorvia de tal maneira o prazer em estado puro, que inchava ao ponto de estalar. E a seguir explodiu. Qualquer coisa de prodigioso. Uma das coisas mais maravilhosas que alguma vez me aconteceu.

E a seguir, como tu sabes, escondi de ti essa ligação. Tu nunca te deste conta de que eu te era infiel e nunca suspeitaste de nada, nem mesmo quando eu chegava tarde e a más horas a casa. De tal maneira confiavas cegamente em mim, que nunca pensaste que um dia poderia atraiçoar-te. E, no entanto, nunca soube o que era o sentimento de culpa. Às vezes ligava-te do quarto de hotel para te dizer que ia chegar mais tarde por causa de uma reunião de trabalho. Dizia uma mentira a seguir à outra sem experimentar o mínimo remorso. Fazia aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo. No meu coração, ansiava pela vida a teu lado. O nosso lar era o lugar onde devia regressar. O mundo ao qual eu pertencia. Apesar disso, o meu corpo sentia um violento desejo de sexo com aquele homem. Uma metade de mim estava em casa, contigo, a levar uma vida tranquila ao teu lado, a outra metade, ali, a fazer amor desenfreadamente com aquele homem.

Quero que entendas ao menos uma coisa: não se dava o caso de tu seres sexualmente inferior a ele, ou de eu estar cansada de fazer amor contigo. O que aconteceu foi que, naquele momento, o meu corpo sentia um apetite voraz, irrefreável. E não pude controlar-me. Não sei dizer-te porque aconteceu. Só te posso dizer que as coisas aconteceram assim. Durante o período em que tive relações com ele, pensei várias vezes em fazer também amor contigo. Parecia-me injusto ir para a cama com ele e contigo não, mas a verdade é que nos teus braços não sentia rigorosamente nada. Deves ter dado por isso. Foi por essa razão que, nos últimos meses, inventei toda a espécie de desculpas para não ter relações sexuais contigo. (…)”

Haruki Murakami, “Crónica do Pássaro de Corda”

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O que é mais valioso?


Não me perguntes para onde vou, porque hoje a liberdade é o meu cicerone. Caminho entre dias claros e desejos singelos onde tudo é autêntico, onde tudo é secretamente apetecível. No ar entoam sinfonias de violinos que transformam a escolha em virtudes displicentes, assim como, o rebento debocha numa flor cativante, eu envolvo-me nesta natureza lograda. Os diamantes são feitos sobre pressão, valiosos mas duros. O maracujá tem um aspecto dúbio, é acarinhado por quem o planta, tem uma flor deslumbrante e um sabor deleitante. Associando a sociedade a este ruralismo ilusório, não deixo de caminhar com o aspecto dúbio de quem anseia nunca ser cúmplice de uma pressão enganadora. Afinal, o que é mais valioso?


Filipe Almeida


Pablo Neruda - Quem Morre?

"Morre lentamente quem não viaja,

quem não lê,

quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo.


Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,

quem não se deixa ajudar.


Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,

repetindo todos os dias os mesmos trajectos,

quem não muda de marca,

não se arrisca a vestir uma nova cor

ou não conversa com quem não conhece.


Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.


Morre lentamente quem evita uma paixão,

quem prefere o negro sobre o branco

e os pontos sobre os "is"

em detrimento de um redemoinho de emoções

justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos

dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.


Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,

quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,

quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.


Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se

da sua má sorte ou da chuva incessante.


Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,

não pergunta sobre um assunto que desconhece

ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.


Evitemos a morte em doses suaves,

recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.


Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade."


Pablo Neruda

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sonhos sem Ilusões - Fernando Pessoa



"Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde."

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'
Foto: José Menezes

sábado, 29 de janeiro de 2011

The Beautiful Girls - On clear day

Artista da Semana: The Beautiful Girls

Álbum: Morning Sun (2002)

Música: On clear day

Recomendação: 4,5/5

Se há coisa que me está a fazer muita falta és tu. Saudades*

Infidelidades - Parte 2/5


Como prometido, aqui vai a 2ªparte. Para quem não leu, a 1ªparte foi publicada em Dezembro de 2010 e encontra-se aqui.

“(…) O que não significa que, no fundo, eu não sentisse o secreto desejo de me vingar de ti. No fundo, no fundo, ainda me sentia magoada pelo facto de teres passado uma vez a noite em casa daquela rapariga. Bem sei que me disseste que não aconteceu nada e eu acreditei em ti, mas isso não significava que a coisa ficasse resolvida. No fim de contas, são os sentimentos que estão em causa. Isto para dizer que não foi por vingança que te fui infiel. Lembro-me de te ter ameaçado, uma vez, mas isso foi da boca para fora. Se fui para a cama com ele, foi porque me apeteceu, mais nada. Uma vontade mais forte do que eu, à qual me foi impossível resistir.

Há já muito tempo que não nos víamos quando quis o destino que nos encontrássemos por causa de um assunto de trabalho. A seguir, fomos comer qualquer coisa e depois entrámos num bar para tomar um copo. Já sabes que não bebo, por isso fiquei-me por um sumo de laranja e não ingeri uma gota de álcool. Portanto, não foi por causa do álcool que aconteceu o que aconteceu. Tratou-se de um encontro normalíssimo, uma conversa o mais natural possível, mas a certa altura tocámos um no outro casualmente, e naquele preciso momento senti um desejo intenso de fazer amor com ele. No instante em que os nossos corpos se tocaram, percebi instintivamente que também ele me desejava. E que sabia que eu o desejava. Foi uma coisa perfeitamente irracional, uma espécie de descarga eléctrica paralisante que passou entre nós. Tive a sensação de que o céu desabafa sobre mim. Senti as faces a arder, o coração a bater desalmadamente, uma forte pressão no baixo-ventre. Mal me conseguia manter sentada no tamborete. A princípio não sabia bem o que me estava acontecer, mas não demorei muito a perceber que estava na presença do desejo sexual. Sentia por aquele homem um desejo físico tão violento que me senti à beira de sufocar. Sem que nenhum de nós tomasse a iniciativa, entrámos num hotel ali perto e fizemos amor como dois loucos.

Bem sei que me arrisco a ferir os teus sentimentos ao descrever-te a situação de uma forma tão crua, mas acredito que, a longo prazo, será melhor que saibas como tudo se passou, ao pormenor e com sinceridade. Por isso, ainda que seja doloroso para ti, peço-te que tenhas paciência e continues a ler.

Não posso dizer que estivesse apaixonada. Com efeito, o que fiz não tinha nada que ver com o «amor». Só sei que queria ter relações sexuais com ele, senti-lo dentro de mim. Pela primeira vez na minha vida desejava um homem ao ponto de me faltar a respiração. Tinha lido acerca de um «desejo irreprimível» nos livros, mas até àquele dia nunca soubera do que se tratava concretamente. (…)”

Haruki Murakami, “Crónica do Pássaro de Corda”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Curtas XII - Nunca é tarde

"A cada instante há que sacrificar o que somos ao que podemos vir a ser."

Charles Bos


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Rui Veloso - Nativa

Artista da Semana: Rui Veloso

Álbum: Auto da Pimenta (1991)

Música: Nativa

Recomendação: 5/5

Sou um grande admirador do Rui Veloso, para mim é umas das principais referências nacionais. É impossível ficar indiferente às músicas e às letras deste grande músico, por isso, Obrigado Rui!


Agustina Bessa Luís - O que é escrever?

E porque também gosto de escrever, não como imposição ou dever, mas sim como uma partilha espontânea de sentimentos, deixo-vos este texto da Agustina Bessa-Luís.

"Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de dum acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida."

Agustina Bessa-Luís, "Contemplação Carinhosa da Angústia"

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ausência II

Em vésperas de festejar um novo ano e, não menos importante, um ano de existência deste blog, terei de ausentar-me durante um mês.

Janeiro vai ser decisivo para olhar o futuro com outros olhos.

Espero que o prazer que tenho a escrever seja recíproco no momento em que lêem os posts aqui publicados.

Um breve, ATÉ JÁ!

DESEJOS DE UM EXCELENTE 2011!!!

Filipe Almeida

Inflação da Perfeição

Não sei que caminho deva seguir e mesmo agora que olho para o céu carregado de nuvens animadas pela indolência do vento, continuo siderado na imagem recriada pelo devaneio da mente. A quantidade de dados adquiridos não se materializa em factos concretos e por mais puzzles que construa não consigo alterar as exigências elevadas de um coração resoluto.

Na perfeição encontro a minha némesis, que de ser tão desejada torna-se trivial. Banalidades à parte, haverá sempre enigmas marginalizados pela inteligência, onde as interrogações começam da mesma forma que terminam, ou seja, num ponto final.

A imagem recriada aperfeiçoa-se à medida que o olhar absorto se perde nos segundos que o tempo não conta, e assim ficamos, expostos e vulneráveis à valorização de uma perfeição irrevogável.

Filipe Almeida

James Blake -Limit To Your Love

Artista da Semana: James Blake

Álbum: Echoes (2011)

Música: Limit To Your Love

Recomendação: 4/5

A versão original é da conceituada Feist, mas pessoalmente, prefiro a versão do James Blake.

Fernando Pessoa - As Imperfeições dos Nossos Sentidos

"Se os nossos sentidos fossem perfeitos, não precisávamos de inteligência; nem as ideias abstractas de nada nos serviriam. A imperfeição dos nossos sentidos faz com que não concordemos em absoluto sobre um objecto ou um facto do exterior. Nas ideias abstractas concordamos em absoluto.
Dois homens não vêem uma mesa da mesma maneira; mas ambos entendem a palavra «mesa» da mesma maneira. Só querendo visualizar uma coisa é que divergirão; isso, porém, não é a ideia abstracta da mesa."

Fernando Pessoa, "Ricardo Reis -Prosa"

Them:Youth - Fever Rising


Artista da Semana
: Them:Youth

Álbum: Toothache

Música: Fever Rising

Recomendação: 4/5

Com a ausência, vou deixar mais duas referências musicais.

Infidelidades - Parte 1/5


Nos dias de hoje, a ficção desta carta é uma realidade desprezível...

“Queria ter-te escrito mais cedo para te explicar tudo como deve ser, mas enquanto procurava as palavras certas para te descrever exactamente os meus sentimentos, para te explicar e fazer-te compreender bem a situação, o tempo passou a voar. Sinto-me mal e tenho muita pena por ti.

Como já deves ter percebido, tenho-me encontrado com outro homem. Nos últimos tempos, durante quase três meses, tive relações sexuais com ele. Travámos conhecimento por questões de trabalho e tu não o conheces. Além disso, quem ele é pouco ou nada importa. Não faço tensões de voltar a vê-lo. Pela minha parte, pelo menos, está tudo acabado, não sei até que ponto isso te servirá de algum consolo.

Se me perguntares se o amava, não saberia responder-te. A questão, de resto, parece-me irrelevante. Agora, se me perguntares se te amava, aí poderia responder-te sem a mínima hesitação: sim, amava-te. Sempre pensei ter feito muito bem em casar-me contigo. E continuo a pensar. Agora vais querer saber porque razão te fui infiel e, em última análise, porque saí de casa e te deixei. Também eu tenho feito a mim mesma esta pergunta vezes sem conta. O que me terá levado a agir assim?

Não consigo encontrar uma explicação. Nunca foi minha intenção arranjar um amante, nem ser-te infiel. De resto, quando comecei a minha relação com este homem, não me passava pela cabeça enganar-te. Encontrámo-nos meia dúzias de vezes por razões profissionais e, às tantas, começámos a falar ao telefone de coisas que não tinham que ver do trabalho. Ele é muito mais velho do que eu, tem mulher e filhos, e, como homem nem sequer se pode dizer que seja especialmente atraente, daí que, por tudo isto junto, nunca me visse passado pela cabeça que um dia poderia vir a ter com ele uma relação profunda. (…)” - as restantes 4 partes serão publicadas em breve.

Haruki Murakami, “Crónica do Pássaro de Corda”

Foto: José Luís Silva

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Clogs feat Matt Berninger - Last Song


Artista da Semana: Clogs

Álbum: The Creatures in the Garden of Lady Walton (2010)

Música: Last Song

Recomendação: 3,5/5


Soltas VII - Inveja/Ciúmes

A euforia de uns, provoca o silêncio de outros!

Vergílio Ferreira - A história é um criar e desfazer de ilusões


"A História é um criar e desfazer de ilusões. Em todos os domínios, sobretudo no do pensar. Admitamos que é antes um desfazer de ilusões até à verdade final. Cercados do nada, antes e depois, o indivíduo, a espécie, a própria terra, o sistema solar, o universo com a degradação da energia, que é que quer dizer uma «ilusão»? É o acordar de um sonho num sonho. Que significa o entusiasmo com o desfazer do que nos iludiu? Mas continuar a sonhar num sonho de segundo grau é não saber que se continua. Com essa ignorância se faz a grandeza do homem. Ou com o ignorar, mas como se não. A verdade perfeita é o nada que nos cerca. Mas no nada nem sequer se sabe que não há nada. Só portanto na ilusão pode haver tudo. E, nesse caso, continuemos."

Vergílio Ferreira, "Conta-Correntes 3"

domingo, 26 de dezembro de 2010

Curtas XII - Posse

"Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência."


Fernando Pessoa "Livro do Desassossego"
Foto: Internet

Coldplay - See you soon


Artista da Semana: Coldplay

Álbum: The Blue Room (EP) - 1999

Música: See you soon

Recomendação: 4,5/5

Matias Aires - Definição de Amor

"O amor não se pode definir; e talvez que esta seja a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o modo de explicar, é infinito o modo de sentir; por isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o gosto, e a dor, não se podem reduzir a palavras. O amor não só tem ocupado, e há-de ocupar o coração dos homens, mas também os seus discursos; porém por mais que a imaginação se esforce, tudo o que produzir a respeito do amor, são átomos. Os que amam não têm livre o espírito para dizerem o que sentem; e sempre acham que o que sentem é mais do que o que dizem; o mesmo amor entorpece a ideia e lhes serve de embaraço: os que não amam, mal podem discorrer sobre uma impressão, que ignoram; os que amaram são como a cinza fria, donde só se reconhece o efeito da chama, e não a sua natureza; ou também como o cometa, que depois de girar a esfera, sem deixar vestígio algum, desaparece."

Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A infância

Lembranças são utopias disfarçadas pelo presente, que originam a sensação de um pensamento duradouro. Relembrar faz levantar o nevoeiro que esconde o condicionalismo de um dia não vivido, é assim que encaramos a plenitude da infância.

Faço uma ode à infância, a todos os momentos que ela me proporcionou e a todos os sentimentos lúgubres que hoje ajuda a sentenciar. Faz parte do ser humano, dispersar por todas as conjecturas produzidas pela imaginação fértil da criança que sempre nos acompanhará. É fascinante como um simples brinquedo consegue ludibriar o tempo e transportar para o mundo só nosso, onde a imaginação é a ferramenta de uma recriação onírica. As brincadeiras são os professores mais exigentes e ensinam-nos a encarar a vida com limites que nós próprios delineamos.

Escrevo este texto com um sorriso acutilante, onde deixo o meu apreço a todos os brinquedos e a todas as brincadeiras que transformaram os sonhos em realidades irrevogáveis, para que hoje consiga acreditar na metamorfose de uma imaginação verídica.

Na infância, acreditava na hipótese de acontecer e agora…acredito que nunca deixei de ser criança.

Filipe Almeida

P.S – Hoje em dia, as crianças da nossa sociedade, deviam brincar mais com legos, playmobis, saltar, correr, andar de bicicleta e subir árvores. Deviam deixar desenvolver toda a potencialidade da imaginação ao invés de se agarrarem a consolas e computadores que só sabem oprimir a capacidade de recriar algo imaginado. Para quem desconhece, chama-se CONCRETIZAR.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Angus And Julia Stone - Draw your Swords


Artista da Semana: Angus And Julia Stone

Álbum: Down the way ( 2010)

Música: Draw Your Swords

Recomendação: 4/5


É daquelas músicas carregadas de sentimento...

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski - I

Dostoiévski, é um dos vários escritores russos que me fascina pela facilidade com que transforma a mente em pensamentos subjectivos . Devíamos parar um pouco e pensar no conteúdo de frases feitas por quem tem a capacidade de entender o pensamento. Divagar faz falta, desde que seja com bom senso. Aqui ficam algumas frases deste escritor russo:

- "O segredo da existência humana não está apenas em viver, mas também em saber para que se vive".

- "A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz."

- "A vida é um paraíso, mas os homens não o sabem e não se preocupam em sabê-lo."

Vale a pena pensar nisto.

Curtas XI - Pormenores


Quando uma decisão puder alterar a certeza, há que dar prioridade aos pormenores.


Filipe Almeida
Foto: Miguel Pereira

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sam Cooke - A chance is gonna come


Artista da Semana:Sam Cooke

Álbum: Ain't That Good News

Música: A chance is gonna come

Recomendação: 4/5


E o meu pensamento após um dia bem produtivo foi " Vamos beber um chá?"

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Destino



Existe um cepticismo crescente quando se fala no destino. Na doutrina que construo diariamente e na qual acredito, o destino é o alicerce para o que ainda não foi descoberto, ou seja, é uma viagem não planeada. Ao longo da vida, o destino surge nos objectivos que traçamos e que nos obrigam a seguir um certo caminho, ora, se não conseguirmos concretizar esse objectivo, por circunstâncias alheias ao querer, toda essa viagem não deixou de ter um destino, certo? O destino é a assimetria entre o desejo e a premonição.

Eu acredito na concepção do destino, como sendo um rascunho pérfido dos sonhos intangíveis onde existe sempre outra alternativa. É esta a diferença entre destino e o predestino. O destino és tu que o crias, estando exposto às suas contrariedades e a predestinação é imutável seja quais forem as tuas acções. Não acredito que haja alguém que tenha o dom da premonição e que consiga predestinar o futuro, ninguém consegue antecipar o presente. Eu acredito no destino, na simplicidade do esboço que a vida vai desenhando… Na predestinação? Só a morte.


Filipe Almeida

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Origens

"O acontecer do ser
na evolução
faz às origens voltar,
o ser ser em novo ser.

E cada semente ser
no recomeçar
o seu corpo de um ser
e ser a razão de ser."

Fernando Ilharco Morgado, " No Rumor da Terra"

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Revés da Imortalidade

“- Se os homens vivessem eternamente, sem nunca desaparecerem deste mundo, sem nunca envelhecerem nem perderem a saúde, acreditas que se davam ao trabalho de queimar os neurónios a pensar nisto e naquilo, como nós fazemos? Quero dizer, nós reflectimos sobre tudo e mais alguma coisa: Filosofia, psicologia, lógica. Religião. Literatura. Acreditas realmente que se a morte não existisse, essas ideias e esses conceitos tão complicados não estariam condenados a desaparecer da face da Terra? Isto é…
(…) o que penso é que as pessoas são obrigadas a reflectir sobre o significado da vida precisamente porque sabem que acabam por morrer um dia. Certo? Quem é que se daria ao trabalho de pensar a sério sobre o facto de estar vivo, se soubesse que continuaria a viver tranquilamente para sempre? Qual seria a necessidade? Ou então, mesmo que a necessidade de reflectir fosse real, o mais certo era as pessoas acabarem por dizer: «Tudo bem, ainda tenho muito tempo pela frente. Deixo isso para mais tarde.» Mas as coisas, na realidade, não são assim. Temos obrigação de pensar neste instante, aqui e agora.”


Haruki Marukami, “Crónica do Pássaro de Corda”

Foto: Hélio Mattos

Paul and Fritz Kalkbrenner - Sky and Sand

Artista da Semana:Paul and Fritz Kalkbrenner

Álbum: BPitch Control

Música: Sky and Sand

Recomendação: 3,5/5

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Contas ao tempo



Partilho hoje, um postal oferecido por uma amiga, que contêm um poema que nos provoca um sentimento de reflexão.

Apesar de "chorar" o tempo que já não tenho, continuo a ter tempo, para fazer contas ao tempo que ainda tenho. Porque o tempo é aquilo que fazemos dele, aqui vai transcrição do poema,


Contas ao tempo

“Mas, cuidar sem tempo tanta conta,
é força do meu tempo
já dá contas!

Mas, cuidar sem tempo tanta coisa
eu que gastei, sem conta, tanto tempo,
para ter a minha conta feita a tempo.

Dado me foi bom tempo e não fiz contas
não quis, sobrando tempo, fazer contas
quero hoje fazer contas, falta tempo.

Oh vós, que tendes tempo sem ter conta!
não gasteis esse tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer contas.

Mas, oh! se os que cuidam do seu tempo,
fizessem desse tempo alguma conta,
não chorava, como eu, o não ter tempo!”

Poema de um monge do séc. XVIII
Foto: José Pio


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Curtas X - O Querer


Pior que não tentar é ter a incapacidade de Querer.

É assim que descrevo o rosto das pessoas desconhecidas com quem me cruzo todos os dias.



Filipe Almeida
Foto: Babi Teixeira



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Kings Of Leon - The End


Artista da Semana: Kings Of Leon

Álbum: Come Around Sundown

Música: The End

Recomendação: 4,5/5

domingo, 21 de novembro de 2010

O poder das palavras

Crescemos ao som de uma amálgama de palavras que nem sempre são bem entendidas, apesar de o discurso aparentar ser o mais íntegro. O motivo de tanta displicência muitas vezes está associado ao facto de não sabermos o seu significado, outras porque simplesmente não as queremos entender.

Devíamos encarar as palavras com toda a reverência e não usá-las somente como forma de exprimir um pensamento que (às vezes) sofre de uma impulsividade precoce, ou como forma de interligar uma discurso que nunca é revisto. A crítica não se refere às palavras mal pronunciadas, mas sim, às que são mal utilizadas por não traduzirem o mesmo significado, em duas pessoas distintas.

Lembro-me do poder das palavras em diferentes cenários da nossa vida: Quando tens dúvidas. Quando precisas de ânimo. Quando queres conhecer. Quando queres proteger. Quando queres recordar. Quando queres partilhar. Quando queres conquistar. Quando queres tentar. Este é o poder das palavras…

São as reminiscências dos bons momentos que perpetuam, por isso, devemos deixar os discursos ardilosos para quem finge não entender as palavras que têm o mesmo significado.

Filipe Almeida

domingo, 14 de novembro de 2010

Curtas IX - You never loose


Qualquer que seja a decisão tomada, há sempre um equilíbrio entre a perspectiva do perder e do ganhar.


sábado, 13 de novembro de 2010

Curtas VIII - Julgamento do tempo


Sentenciamos o tempo, porque continuamos a pensar que nada é para sempre.

Filipe Almeida

Foto: Rattus


Lhasa de Sela - Love Came Here

Artista da Semana: Lhasa de Sela

Álbum: Lhasa

Música: Love Came Here

Recomendação: 3,5/5

Lhasa não conseguiu vencer o cancro da mama, mas a sua música ficará para sempre.

Ser, Parecer - Mia Couto

Ser, Parecer

"Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos."

Texto : Mia Couto
Foto: Bruno Bastos

domingo, 7 de novembro de 2010

Quando te disse adeus, não foi para sempre!

Quando te disse adeus, não foi para sempre! Os desejos agora são como cartas escritas à mão, onde as lágrimas provocadas por um sentimento semelhante à saudade, não se limitam apenas a manchar as linhas do passado, as lágrimas também refutam o sorriso que sempre me acompanhará. O espaço já não nos pertence, as montanhas que subimos estão agora cobertas de neve e o espelho provocado pela serenidade do rio já não nos reflecte. Quando te disse adeus, não foi para sempre!

O tempo mostrou-nos que não tivemos medo de mudar e hoje…envelhecemos num tom impetuoso, rodeados de falsas recordações que recriam um filme quase mudo. As quimeras também são permissivas à realidade e hoje que estás longe, acredito que a loucura do amor está condenada à precariedade de meia dúzia de palavras românticas. As perguntas agora são como especulações sem sentido, onde a resposta é uma verdade absoluta para quem não acredita na mentira. Quando te disse adeus, não foi para sempre!

O verbo entender é asséptico a qualquer momento decorrente num passado que já foi presente, talvez por isso, a razão considere que seja sempre tarde para pedidos de desculpas. Hoje…somos apenas estranhos que já estiveram à distância do respirar e no final…seremos apenas descobridores de lágrimas sentidas, harmonizadas com a voluptuosidade das gotas de suor.

Esqueci-me como te pronunciava a palavra “amo-te” … Quando te disse adeus, não foi para sempre!


Filipe Almeida

P.S - Ao texto escrito em cima, não o considerem "lamechas" , para quem não sabe, ou nunca sentiu, fica a visão que o amor ainda existe...